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15042013

                       
                       
                   
                   Os deficientes deparam-se com inúmeras dificuldades para a deslocação nas ruas da capital
Para quem anda de cadeira de rodas ou é invisual, o simples acto de
atravessar uma passadeira nas movimentadas ruas da capital pode
tornar-se uma aventura

                Quando sai de casa, todas as manhãs, Madalena Brandão tem imediatamente
um desafio à sua espera. No cruzamento entre a Avenida da República e a
Avenida Júlio Dinis, em Lisboa, onde mora, o passeio tem um desnível de
10 centímetros face à passadeira. Madalena desloca-se em cadeira de
rodas, pelo que, para chegar à plataforma onde se situam as paragens de
autocarros e daí ao Campo Pequeno, tem de andar em plena estrada, à
mercê dos automóveis que por ali passam.
Depois de pelo menos quatro desvios a que o desenho das passadeiras
obriga, novo desafio a aguarda já em frente à Praça de Touros. Aqui, a
passadeira tem uma rampa, mas excessivamente inclinada. Madalena só a
consegue subir sem ajuda porque está numa cadeira de rodas eléctrica.
Hélder Mestre, numa cadeira manual, não tem a mesma sorte. "Isto é
sempre um folclore", diz. Ultrapassadas as primeiras dificuldades, estão
juntos os três autores do blogue "Lisboa (IN)Acessível", criado no mês
de Fevereiro: além de Madalena e Hélder, Filipa Marcos.
Licenciada em Reabilitação Psicomotora, Filipa não tem qualquer
deficiência física, mas partiu dela a iniciativa de criar o blogue.
"Esta área sempre me interessou muito. As pessoas não estão muito
sensibilizadas para este tema", admite Filipa, que espera que o blogue
contribua "para mostrar que é cool ser acessível". Algo que
muitas ruas e edifícios de Lisboa ainda não são. Iniciando um percurso
que já relataram na Internet, os três seguem pela Avenida da República
acima, demonstrando as falhas da via para pessoas em cadeira de rodas.
Por exemplo, mal a Praça do Campo Pequeno fica para trás, em direcção à
estação de Entrecampos, Madalena tem de circular uma vez mais em plena
estrada, numa faixa reservada a autocarros, já que a altura do passeio é
de, pelo menos, 15 centímetros.
Os veículos que ali passam vêem-se obrigados a abrandar e a desviar-se.
"Uma vez, um autocarro teve de esperar que eu passasse", já que aquele
troço não é suficientemente espaçoso para uma cadeira de rodas e um
veículo largo ao mesmo tempo, afirma Madalena. Hélder segue no passeio,
porque Filipa o ajudou a subir. Mas também aqui não é fácil circular.
O empedrado, além de não ser muito amplo, é inclinado em direcção à
estrada e apresenta obstáculos como postes de iluminação e sinalização e
caixotes do lixo. "Não há sensibilidade nem preocupação" para os
problemas da acessibilidade, diz Hélder, que assume ter que empregar uma
grande força de braços para manter a cadeira direita e não cair na
estrada.
Nada a que, aliás, não esteja habituado. Tetraplégico desde os 19 anos,
Hélder Mestre continuou a fazer o que já fazia antes do acidente de
automóvel que o atirou para a cadeira de rodas: atletismo.
No passado dia 24 de Março, esteve mais uma vez na Meia-Maratona de
Lisboa, na prova de deficientes motores, cuja passagem pela nova Avenida
da Ribeira das Naus - em mau estado na altura - poderia ter trazido
problemas aos atletas. "A única maneira de evitar males maiores seria
fazer a travessia do troço a uma velocidade muito moderada", o que
acabou por acontecer, conta Hélder no blogue.
Dois minutos para um botão
De regresso ao passeio, depois de ultrapassado o viaduto ferroviário da
estação de Entrecampos, Madalena vai relatando a experiência que é
andar em transportes públicos como o Metro de Lisboa. "Tenho de
telefonar a dizer que vou apanhar o metro e perguntar se os elevadores
estão a funcionar." Segundo o Metropolitano, 35 das 55 estações da rede
já têm acessibilidade plena e, de acordo com dados de 27 de Fevereiro,
85 dos 97 elevadores estavam operacionais.
A estação de metro de Entrecampos não é uma das que são acessíveis para
pessoas em cadeira de rodas. Mas esse não é o único problema de
mobilidade da zona, o que levou a que nove associações de deficientes
apresentassem a proposta "Lisboa Acessível" ao Orçamento Participativo
da Câmara de Lisboa em 2012. O projecto - orçado em 500 mil euros - foi
seleccionado para ser executado no prazo de 18 meses e destina-se a
eliminar todas as barreiras do eixo Entrecampos-Saldanha, o que
significará a adaptação de 81 passadeiras e 16 paragens de autocarro.
De acordo com o Decreto-Lei 163/2006, que regula as acessibilidades de
espaços públicos, estas alterações deviam ocorrer num prazo máximo de 10
anos, ou seja, até 2016. No caso dos edifícios novos, a acessibilidade
plena deveria estar garantida logo no projecto.
Algo que não acontece, por exemplo, num edifício recém-construído no
número 186 da Avenida 5 de Outubro, onde, exactamente em frente à porta
de entrada principal, existe uma caixa de electricidade que quase impede
a entrada no prédio. "É falta de formação, consciencialização,
fiscalização e penalização", resume Hélder Mestre perante o insólito da
situação.
As acessibilidades para deficientes em Lisboa parecem, assim, seguir a
máxima do anúncio da Prevenção Rodoviária Portuguesa em que Hélder
levava dois minutos a abotoar um botão de camisa: "Quanto mais depressa,
mais devagar".
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